Rosa Fidelis Gaspar tinha acabado de completar 47 anos quando morreu soterrada durante o temporal que atingiu São Paulo na quarta-feira (14). Moradora da Brasilândia, na Zona Norte da capital, ela já havia sobrevivido a outro deslizamento de terra na mesma região, cerca de oito anos atrás.
Na ocasião, conseguiu sair a tempo e ainda salvou dois netos recém-nascidos que estavam com ela, segundo o filho, Luiz da Paz Pereira Santos Neto.
"Estava uma forte chuva naquele dia. Ela ouviu um forte barulho, pegou os netos e saiu. Quando chegou na porta, houve o deslizamento sobre a casa. Foi um livramento na época. Na época, ela salvou os dois netos", afirmou.
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De acordo com Luiz, depois do primeiro deslizamento, a família se mobilizou para reconstruir a casa, limpar o terreno e erguer novamente uma moradia para Rosa. Ele contou que havia comprado o terreno para a mãe, com quem mantinha uma relação próxima, e que morava ao lado dela.
Desta vez, porém, ela não conseguiu escapar quando a terra cedeu e atingiu a casa construída no alto de uma encosta, na Rua Santa Cruz do Monte Castelo, no Jardim Paraná. O imóvel desmoronou e foi arrastado pelo deslizamento. Rosa estava com o joelho machucado, caminhando com dificuldade.
O marido estava nas proximidades quando soube que uma casa havia desabado. Ao chegar, encontrou vizinhos retirando Rosa da lama e dos escombros. O Corpo de Bombeiros foi acionado e prestou os primeiros socorros, mas ela não resistiu.
'Ela era tudo'
Rosa havia completado 47 anos em 5 de outubro, nove dias antes de morrer. Ela deixa três filhos e quatro netos, entre eles uma criança de 1 ano e meio.
A filha, Ritiene Fidelis, descreveu a mãe como uma mulher guerreira, generosa e fundamental para a família. “Minha mãe era uma pessoa... ela era tudo, era mãe, amiga, tudo”, afirmou.
Ritiene também lamentou que a família não tenha condições financeiras para deixar a área de risco. “Se ela tivesse assim, um dinheiro, dava para a gente sair”, disse.
Rosa trabalhava como cozinheira e era conhecida pela disposição para ajudar as pessoas. “Uma mulher muito, muito guerreira”, disse a filha, ao recordar a mãe, a quem descreveu como alguém de “coração gigante”.
A região onde ficava a residência é classificada há anos pela Prefeitura de São Paulo como área de risco geológico. Procurada para informar quais medidas haviam sido adotadas no local, a administração municipal não havia respondido até a última atualização desta reportagem.
A morte de Rosa foi a quinta provocada pelas chuvas na capital paulista apenas em 2026.
Na própria Brasilândia, a força da enxurrada arrastou outra mulher na quarta. Imagens registradas por testemunhas mostram a vítima sendo levada pela correnteza até ser resgatada por pessoas que estavam no local.
1h30 de tempestade
Em cerca de 1h30, o temporal com chuva mais intensa, granizo e ventos fortes deixou um rastro de destruição e caos na cidade de São Paulo. Além da morte de Rosa, a tempestade alagou ruas, deixou carros submersos no túnel do Anhangabaú, no Centro, derrubou árvores e provocou transtornos no transporte público e aéreo.
Anhangabaú teve enchente em 1999, quando 160 veículos ficaram submersos'A água subiu em segundos': motoristas relatam desespero no túnel do Anhangabaú
Vídeos gravados por testemunhas mostram veículos debaixo d'água no túnel do Anhangabaú e na Avenida 23 de Maio, além de uma mulher sendo arrastada pela enxurrada na Zona Norte. Ela foi salva por outra pessoa (veja vídeos e fotos nesta reportagem).
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No Centro, 26 carros e dois ônibus ficaram completamente submersos no túnel do Anhangabaú, onde quatro pessoas foram resgatadas pelos bombeiros.
Segundo a Prefeitura, as seis bombas do local funcionaram, mas não deram conta de escoar toda a água. O Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) registrou 42 milímetros de chuva em 40 minutos na região. Por volta das 19h15, uma faixa foi liberada.
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Na Zona Sul, carros ficaram parcialmente submersos na Avenida 23 de Maio, e o lago do Parque Ibirapuera transbordou, derrubando uma grade e alagando vias internas e pistas de caminhada. A concessionária Urbia registrou 97 milímetros de chuva no parque em menos de uma hora. O Córrego do Sapateiro, na Vila Mariana, também transbordou.
Segundo a Urbia, o sistema de drenagem funcionou normalmente, mas o grande volume de água vindo dos córregos do entorno provocou o transbordamento do lago e danificou a mureta com gradil do Portão 8.
A concessionária informou que não houve feridos e que o parque reabriu normalmente às 5h desta quinta-feira (15), após trabalhos de limpeza realizados durante a madrugada. Ao todo, 120 profissionais atuam na vistoria, limpeza e recuperação das áreas afetadas.
Segundo o CGE, a chuva mais intensa durou cerca de uma hora e meia. Em vídeo nas redes sociais, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que "choveu 40%, em poucos minutos, do que era para chover o mês inteiro". A Prefeitura informou que fará um levantamento dos prejuízos.
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Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), a vítima foi encontrada entre os escombros da casa que desabou devido à chuva na Zona Norte.
Moradores a retiraram antes da chegada das equipes de resgate. O caso foi registrado no 72º Distrito Policial (DP), na Vila Penteado, e a polícia requisitou perícia. A identidade dela não foi divulgada.
No Bixiga, região central, uma pensão desabou parcialmente na Rua Conselheiro Ramalho e foi interditada pela Defesa Civil em razão do temporal. Segundo o governo estadual, não havia moradores no imóvel. Até as 19h, a Prefeitura registrava 16 ocorrências de queda de árvores, além de chamados para desabamentos e deslizamentos.


