Em homenagem aos 127 anos de Campo Grande nesta quarta-feira (26), a história do Hotel Gaspar ilustra o crescimento da capital.
Inaugurada em 1914, a estação ferroviária impulsionou a cidade. O hotel surgiu próximo aos trilhos e abriu sob luto pela morte de Getúlio Vargas.
Após marcar gerações com personagens marcantes, o prédio atualmente não funciona mais como hotel e está à venda pela família de Gaspar.
Da paixão por uma pequena cidade a um lugar que entrou para a história da capital de Mato Grosso do Sul, o Hotel Gaspar é conhecido por muitas gerações de campo-grandenses. O local foi inaugurado no aniversário de 82 anos de Campo Grande, como uma forma de o idealizador português Antônio Gaspar homenagear a cidade que escolheu para viver e onde decidiu construir sua história. Veja o vídeo acima.
Muito antes da criação de Mato Grosso do Sul, Gaspar já havia escolhido o lugar onde construiria não apenas um hotel, mas também seu lar, ao lado da esposa, dos filhos e, mais tarde, dos netos. No “coração de Campo Grande”, como a família costuma definir a região, ele viu, ao lado da estação ferroviária, o ponto ideal para o empreendimento.
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➡️🎂 Esta reportagem faz parte de uma série especial em homenagem aos 127 anos de Campo Grande, celebrados nesta quarta-feira (26).
A neta, Christian Gaspar, contou ao g1 que o avô era determinado e não teve dúvidas de onde queria construir.
“Ele queria construir o hotel aqui. Tinha que ser aqui. Meu avô sempre foi uma pessoa assim, muito visionário [...] Ele tinha uma coisa com esse terreno, porque, acredito eu, era na frente da ferroviária, e era o coração de Campo Grande, porque tudo se fazia pela ferrovia, tudo chegava em Campo Grande pela ferrovia”, contou no hall do hotel.
Estação ferroviária
Inaugurada em 1914, a Estação Ferroviária de Campo Grande teve um papel importante no crescimento da cidade. O local funcionou até 1996, quando foi fechado. Anos depois, a estação foi tombada como patrimônio histórico pela Prefeitura de Campo Grande.
A estação era usada para embarque e desembarque de passageiros, além do carregamento e descarregamento de mercadorias transportadas pela ferrovia. Ela foi uma das primeiras estações ferroviárias concluídas no então estado de Mato Grosso.
Com a chegada dos trilhos, Campo Grande se tornou um ponto de distribuição de mercadorias que antes chegavam e saíam da região principalmente pelo porto de Corumbá. A ferrovia também encurtou o caminho entre o então Mato Grosso e São Paulo.
Foi justamente a proximidade com a estação que ajudou a transformar o Hotel Gaspar em um ponto de parada para quem chegava de trem. Quem desembarcava na cidade podia encontrar ali um lugar para comer, descansar e esperar até a próxima viagem.
Inauguração e expansão
O dia da inauguração, porém, não foi tão festivo quanto a família imaginava. Dois dias antes, o então presidente da República, Getúlio Vargas, morreu aos 72 anos. O país estava de luto e as comemorações foram deixadas de lado. Mesmo assim, o hotel abriu as portas.
No início, eram cerca de 55 quartos, que logo passaram a ser bastante procurados pelos viajantes que chegavam a Campo Grande em busca de comida e um lugar para descansar.
Segundo Christian, a pressa para conseguir uma vaga no hotel era tanta que alguns passageiros nem esperavam o trem parar completamente.
“Quando o trem chegava, a parte da frente, de onde desciam os viajantes, parava a cerca de 150 metros do hotel. Aí eu lembro que teve uma época em que alguns passageiros jogavam as malinhas para fora e pulavam pela janela, antes mesmo do veículo parar por inteiro, para conseguir chegar primeiro no hotel e garantir a vaga”, contou a neta, rindo da situação.
Com o movimento aumentando, Gaspar decidiu ampliar o hotel. O número de quartos passou para 82, numa tentativa de dar conta da quantidade cada vez maior de hóspedes que chegavam à cidade pelos trilhos.
Funcionários que entraram para a história
Ter um hotel tão requisitado e acostumado a receber pessoas de fora também rendeu muitas histórias para a família. Christian conta que, entre os funcionários, uma das figuras mais marcantes foi o gerente Quirino, como era conhecido pela família. Ele trabalhou no hotel por 50 anos e só deixou o cargo depois da morte de Gaspar.
"Ele era um filho para o meu avô. Meu avô o pegou com 13 anos e falou: 'você quer trabalhar?', ele disse 'quero', 'então você vai começar aqui no bar, primeiro vai limpar, depois vai fazer salgado, depois doce, e depois vai atender o cliente'. Então, assim, meu avô ensinou tudo para ele", conta.
Quando era mais jovem, Christian também gostava de "perturbar" o gerente. Ela relembra as brincadeiras que fazia para conseguir um dinheiro extra.
"Eu perturbava ele até não poder mais. Eu batia no balcão e falava: 'Quirino, eu preciso de dinheiro'. Ele dizia 'não', e eu falava: 'eu vou contar para o vovô amanhã'. Daí ele falava: 'tá bom, pode pegar o dinheiro'. Ele foi um pai para mim aqui no hotel, uma pessoa muito especial", relembra.
Mesmo após parar de trabalhar no hotel, Quirino continuou acompanhando de perto a rotina do lugar. Uma vez por semana, ele aparecia por lá para conferir se estava tudo em ordem.
"Ele ia à lavanderia, olhava as máquinas por dentro, por fora, ia na cozinha, olhava uma coisa, olhava outra. [...] Ele era o braço direito e esquerdo, as duas pernas do meu avô aqui dentro."
O hóspede italiano que acordava o hotel inteiro
Outra figura que ficou na memória da família foi um hóspede italiano chamado Michelle, que morou no quarto andar do hotel.
Segundo Christian, ele costumava ligar para a mãe, que vivia na Itália, sempre aos domingos, por volta das 6h. O problema é que as conversas eram tão animadas que acabavam acordando todo mundo.
"Ele gritava no telefone e aí descia e a gente falava: 'Mimo, da próxima vez você só abre a janela e grita, a mama vai escutar lá. Você não precisa fazer mais nada porque, no volume que você fala, você acorda o hotel inteiro'. E ele dizia: 'Não, mas tem que ligar esse horário para a mama, porque lá são não sei quantas horas pra frente'. Mas, gente, era uma figura", conta.
Com o tempo, Michelle deixou de ser apenas hóspede e virou parte da família. Depois de se divorciar, passou a morar com eles e acabou sendo "adotado" por Gaspar. Às sextas-feiras, inclusive, era ele quem preparava o macarrão para a família.
Segundo Christian, essas figuras fizeram parte da rotina da família desde que ela se entende por gente.
"Eles só deixaram de frequentar o hotel por falecimento, só por isso deixaram de vir ao hotel."
Um hotel que virou parte da história
Mesmo após a morte de Gaspar, em 1988, a família continuou à frente do estabelecimento. O hotel chegou a ser arrendado por dez anos, mas depois voltou para as mãos da família.
Hoje, o prédio está à venda e não funciona mais como hotel. Apesar de não ser considerado patrimônio histórico, para a família, o lugar carrega uma história que vai muito além das paredes do prédio.
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