Pesquisadores brasileiros utilizam tecnologia de escaneamento 3D do Coliseu de Roma para monitorar a estrutura do Museu do Ipiranga, em São Paulo.
O mapeamento ocorreu entre setembro e outubro deste ano. O equipamento portátil registra coordenadas com precisão milimétrica para identificar desníveis e mofo.
A modelagem digital permite comparar as condições atuais do prédio com dados de 2017 e simular impactos de eventos climáticos extremos.
Inaugurado em 1895, o museu abriga mais de 450.000 itens. O acervo inclui a pintura "Independência ou Morte", de Pedro Américo.
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Pesquisadores brasileiros adotaram uma tecnologia de escaneamento 3D a laser usada no Coliseu, em Roma, para monitorar a integridade estrutural do Museu do Ipiranga, em São Paulo.
O trabalho mapeou cada milímetro do prédio histórico, por dentro e por fora, e permite acompanhar o comportamento da edificação após a reforma que manteve o espaço fechado por nove anos. A tecnologia também possibilita criar um modelo digital do museu para auxiliar na preservação preventiva do patrimônio.
O projeto é uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Ferrara, na Itália. A execução ficou a cargo de pesquisadores italianos da mesma equipe que escaneou o Coliseu. As duas instituições mantêm uma parceria de pesquisa há 20 anos.
O trabalho durou três semanas, entre setembro e outubro deste ano, e foi realizado de forma gradual para não interferir na rotina do museu. Os espaços maiores, como o Salão Nobre, foram escaneados às segundas-feiras, quando não recebem visitantes.
Como funciona o escaneamento 3D
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Os pesquisadores utilizam um equipamento portátil, do tamanho de uma caixa de sapato, que emite raios laser para registrar as coordenadas de cada ponto das paredes, dos pisos e das fachadas. As informações são reunidas em um grande arquivo digital.
Diferentemente da medição tradicional, feita com trenas e baseada nos ângulos principais de uma sala, o laser registra a superfície real com precisão de milímetros. O equipamento capta variações e revela desníveis, grau de umidade e até pequenos sinais de mofo nas paredes.
Para o professor de Arquitetura da Universidade de Ferrara, Marcello Balzani, o processo funciona como um exame médico detalhado.
“O edifício respira e se transforma com o tempo. É como fazer uma radiografia, um ultrassom, uma tomografia. A estrutura são os ossos, os caminhos são os músculos, o ar são os pulmões. Temos essa relação corpórea com a arquitetura. E, em uma edificação histórica, isso é ainda mais importante: precisamos mantê-la com saúde”, explica Balzani.
Modelo digital permite comparar antes e depois
A equipe italiana já havia escaneado o museu entre 2017 e 2018, antes da obra de restauração do edifício. O novo levantamento permite comparar as condições da estrutura antes e depois da reforma.
O resultado é um modelo tridimensional conhecido como “gêmeo digital”, que reúne informações físicas do prédio. O processo é chamado de HBIM, sigla em inglês para Modelagem de Informação da Construção Histórica.
“No modelo digital do museu, nós vamos anotando todas as manutenções e tentando descobrir as causas. Se uma lâmpada queima a cada três meses é porque tem alguma coisa errada com a instalação. Assim, é possível intervir antes de a situação se agravar”, explica Beatriz Kühl, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design (FAU-USP) e coordenadora científica do projeto Ipiranga Digital.
O mapa virtual também permite simular cenários extremos provocados pelas mudanças climáticas, como temporais mais fortes e dias de calor intenso, para avaliar como o prédio pode reagir. Antecipar problemas custa menos, evita obras pesadas e reduz a necessidade de intervenções no patrimônio histórico.
Tecnologia já foi usada no Coliseu de Roma
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A tecnologia aplicada no Museu do Ipiranga já foi utilizada no Coliseu, em Roma, que recebe cerca de 30 mil visitantes por dia. Na Itália, a equipe precisou documentar milênios de intervenções sobrepostas à estrutura original do monumento.
O trabalho gerou cerca de 150 terabytes de informações, processadas por máquinas e analisadas pelos pesquisadores.
“Mais do que a tecnologia, vale o conhecimento das pessoas. O scanner não faz nada sozinho. O diferencial está sempre na capacitação técnica de quem interpreta os dados e extrai sentido daquelas informações. É necessário o talento humano organizando o processo para que a inteligência artificial possa cruzar essas informações a nosso favor. Afinal, quem dá o laudo médico é o médico, e não a máquina”, reforça Balzani.
Museu do Ipiranga guarda mais de 450 mil itens
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Projetado como um monumento para celebrar a Independência do Brasil, o Museu do Ipiranga foi construído entre 1885 e 1890 e inaugurado em 7 de setembro de 1895. Com 130 anos de história, é o museu público mais antigo da capital paulista e é tombado como patrimônio histórico municipal, estadual e federal.
O acervo reúne mais de 450 mil itens, entre objetos, fotografias e documentos do século 17 até meados do século 20, importantes para a compreensão da sociedade brasileira.
Entre os móveis e as obras de arte, destaca-se a tela “Independência ou Morte”, do pintor Pedro Américo. Feita em 1888, a pintura representa livremente o momento em que Dom Pedro I teria proclamado a separação do Brasil de Portugal.



