As novas metas climáticas apresentadas pelos países podem reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em apenas 6% até 2035, um corte dez vezes menor do que o necessário para limitar o aquecimento global a 1,5°C.
O alerta vem da Organização das Nações Unidas (ONU), que afirma que, apesar dos compromissos assumidos desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, o mundo continua distante de conseguir conter o aumento da temperatura do planeta.
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A avaliação, divulgada nesta terça-feira (27) pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), chega às vésperas da COP31, que será realizada entre 9 e 20 de novembro, em Antália, na Turquia.
O documento considera 127 novas metas climáticas nacionais, conhecidas como NDCs, apresentadas entre janeiro de 2024 e agosto de 2026.
Juntas, elas representam 154 participantes do Acordo de Paris, incluindo a União Europeia e seus países-membros, responsáveis por aproximadamente 71% das emissões globais registradas em 2019, sem considerar o desmatamento e as mudanças no uso da terra.
Segundo a ONU, mesmo que os novos compromissos sejam cumpridos, as emissões globais devem ficar, em média, apenas 6% abaixo dos níveis de 2019 até 2035.
Para manter o aquecimento limitado a 1,5°C, sem ultrapassar esse patamar ou com uma ultrapassagem pequena e temporária, as emissões precisariam cair aproximadamente 60% no mesmo período, de acordo com as estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
🌡️ENTENDA: Essa meta de 1,5°C foi estabelecida pelo Acordo de Paris em 2015 para evitar impactos extremos do clima, como secas, elevação do mar e colapso de geleiras. Estudos recentes, porém, mostram que o mundo pode já ter ultrapassado esse ponto crítico.
Para limitar o aumento da temperatura a menos de 2°C, a redução necessária seria de aproximadamente 37%.
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A ONU calcula ainda que, se todas as medidas previstas nas novas metas forem integralmente implementadas, incluindo aquelas que dependem de financiamento e apoio internacional, a redução poderia chegar a 9% até 2035.
📝ENTENDA: Essas metas são o principal instrumento do Acordo de Paris para enfrentar a crise climática. A NDC atual do Brasil, por exemplo, inclui a meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 53% até 2030 e zerar as emissões líquidas até 2050.
Sem essas medidas adicionais, a queda seria de apenas 3%. Apesar da distância em relação aos objetivos do acordo, o documento aponta que as emissões globais podem atingir seu pico antes de 2030 e começar a diminuir nos anos seguintes.
A projeção indica que o volume anual de gases de efeito estufa deve ficar entre 49,6 bilhões e 55,9 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2035. Essa medida permite somar diferentes gases, considerando o potencial de aquecimento de cada um.
A redução prevista, porém, ainda seria insuficiente para impedir que o planeta ultrapasse o limite de 1,5°C.
Com base nas novas metas nacionais e nas projeções para as emissões futuras, o aquecimento global pode chegar a 3,2°C até o fim do século.
Por que cada grau importa?
Gui Sousa/Arte g1
O documento estima um aumento da temperatura entre 2,1°C e 3,2°C até 2100, considerando os compromissos apresentados e as hipóteses utilizadas para projetar as emissões após o período coberto pelas metas.
A ONU apresenta também uma segunda estimativa, que considera os objetivos de longo prazo dos países, incluindo as promessas de zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até meados do século.
Nesse caso, o aquecimento projetado ficaria entre 1,7°C e 2,3°C até 2100.
Para que essa projeção se confirme, porém, os países precisarão cumprir as metas de longo prazo e adotar medidas para reduzir as emissões nas próximas décadas.
O relatório também alerta que o mundo pode esgotar antes de 2030 o limite de emissões de CO₂ considerado compatível com a meta de restringir o aquecimento global a 1,5°C.
Segundo a ONU, esse limite, chamado de orçamento de carbono, é de aproximadamente 130 bilhões de toneladas de CO₂ a partir do início de 2026. O volume equivale a cerca de três anos das emissões globais atuais.
A previsão, no entanto, é que os países emitam aproximadamente 368 bilhões de toneladas de CO₂ entre 2026 e 2035, considerando os compromissos apresentados até agora. O volume é quase três vezes maior que o limite disponível para manter o aquecimento em 1,5°C.
Com isso, caso a temperatura global ultrapasse esse patamar, seria necessário remover grandes quantidades de CO₂ da atmosfera para tentar reduzir o aquecimento novamente.
Chaminés industriais liberam fumaça na atmosfera, uma das fontes de poluição do ar e de emissão de gases que contribuem para o aquecimento global.
Adina Voicu/Pixabay
O que mudou nos compromissos dos países
Apesar dos resultados, a ONU reconhece que os governos passaram a incluir mais medidas de enfrentamento às mudanças climáticas em suas metas nacionais.
Cerca de 90% dos participantes analisados afirmaram ter considerado as conclusões do primeiro balanço global do Acordo de Paris, concluído na COP28, realizada em Dubai, em 2023.
Além disso, 99% apresentaram medidas nacionais para reduzir emissões, principalmente nos setores de energia, transporte, indústria, agricultura e gestão de resíduos.
Ainda segundo a análise da ONU, a transição energética está entre as principais prioridades dos países.
A parcela que apresentou medidas para modernizar as redes elétricas passou de 51% para 70%, enquanto a proporção dos que preveem ampliar o armazenamento de energia subiu de 33% para 56%.
O relatório também aponta que 92% dos participantes incluíram o metano em suas metas climáticas e 90% apresentaram compromissos relacionados ao uso da terra e às florestas, como o combate ao desmatamento e o reflorestamento.
Como funcionam as discussões da COP, a conferência do clima da ONU
Apesar das novas promessas, os resultados ainda são desiguais. Um segundo relatório divulgado nesta terça-feira, com base em 137 documentos nacionais, mostra que 61 participantes registraram avanços em direção às metas climáticas, enquanto outros 27 se afastaram dos objetivos ou apresentaram resultados mistos.
A ONU ressalta que esses avanços não significam, necessariamente, que os países estejam reduzindo suas emissões no ritmo necessário para cumprir os compromissos.
Consequências do aquecimento global
Gui Sousa/Arte g1
Adaptação e financiamento climático
A adaptação aos efeitos das mudanças climáticas também ganhou espaço nas novas metas.
Segundo a ONU, 86% dos participantes incluíram medidas nessa área, principalmente para proteger a produção de alimentos, os recursos hídricos e a saúde, além de prevenir desastres.
Entre esses países, 92% também mencionaram perdas e danos provocados pelas mudanças climáticas, como destruição de infraestrutura, prejuízos econômicos e mortes em eventos extremos. Nas metas anteriores, essa proporção era de 56%.
Apesar disso, a implementação das medidas ainda enfrenta dificuldades. Até outubro de 2026, 81 países em desenvolvimento haviam apresentado planos nacionais de adaptação, mas 36 dos 41 planos analisados entre países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares ainda estavam nas etapas iniciais de execução.
O financiamento também continua sendo um obstáculo. Os investimentos climáticos globais chegaram a uma média de US$ 1,9 trilhão por ano em 2023 e 2024, um aumento de 32% em relação ao biênio anterior.
Desse total, apenas 9% foram destinados a transferências internacionais para países em desenvolvimento, o equivalente a cerca de US$ 183 bilhões anuais.
Os recursos voltados especificamente à adaptação somaram US$ 63 bilhões por ano, uma queda de 20% e apenas 3% do financiamento climático global identificado.
Já os países desenvolvidos superaram, em 2023 e 2024, a promessa de mobilizar US$ 100 bilhões anuais para apoiar nações em desenvolvimento. Os valores chegaram a US$ 132,8 bilhões e US$ 136,7 bilhões, respectivamente. A meta, no entanto, deveria ter sido cumprida originalmente em 2020.
A contabilização desses recursos ainda é motivo de divergência. Segundo a Oxfam, o esforço financeiro efetivo dos países ricos em 2024 ficou entre US$ 32,7 bilhões e US$ 44,7 bilhões, considerando critérios diferentes dos utilizados pela OCDE.
A redução das emissões e o financiamento aos países mais vulneráveis devem estar entre os principais temas das negociações da COP31.
Pessoas tiram fotos do primeiro nascer do sol do ano em um parque em Seul, Coreia do Sul, em 1º de janeiro de 2023
REUTERS/Kim Hong-Ji

