Aldo Hayrton Dezan, de 58 anos, trabalha voluntariamente como palhaço em hospitais do interior paulista após enfrentar 5 anos de tratamento médico.
O projeto começou em 2008, em Votuporanga, após Aldo tratar uma tendinite aguda. Hoje, o trabalho é gratuito via Lei de Incentivo à Cultura.
A equipe atua também no Complexo Hospitalar Funfarme, em São José do Rio Preto. O grupo realiza improvisos, músicas e mímicas para os pacientes.
O tratamento de cinco anos contra tendinite aguda despertou em um morador de Votuporanga, no interior de São Paulo, a vontade de iniciar o trabalho voluntário de palhaçaria hospitalar.
Em 2003, a rotina estressante e exaustiva em São Paulo (SP), cidade na qual residia à época, obrigou Aldo Hayrton Dezan, de 58 anos, a passar por avaliações, exames e consultas médicas em hospitais para amenizar os efeitos da inflamação, que é caracterizada por afetar os tendões e as estruturas fibrosas por meio dos quais conectam os músculos aos ossos do corpo humano.
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Foi em meio à angústia e às incertezas sobre seu quadro de saúde que Aldo teve contato pela primeira vez com a atividade que viria a ser uma das suas grandes paixões. Sua irmã mais nova, Daniela Dezan, de 55 anos, é atriz e coordenou um grupo de palhaços que visitava hospitais públicos da região metropolitana.
Foi acompanhando a atividade dos voluntários que ele tomou a decisão de também ajudar outras pessoas. “Essa experiência me tornou mais sensível para compreender o sofrimento de quem está hospitalizado”, contou Aldo em entrevista ao g1.
Em 2008, após finalizar o tratamento de saúde, Dezan voltou a morar em Votuporanga, cidade onde cresceu, e iniciou as primeiras idas e vindas aos hospitais do interior paulista de forma voluntária. Logo, passou a fazer parte de um grupo no qual os integrantes têm a missão de transformar a apreensão presente no dia a dia de pacientes internados em momentos de alegria.
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Da dor ao riso
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Hoje, Aldo é coordenador do grupo. O projeto desempenhado pelos voluntários é viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura. A verba recebida através do Governo Federal é utilizada para custear figurino, maquiagem, deslocamento da equipe e outras despesas decorrentes da atividade voluntária. Já as instituições de saúde beneficiadas pela iniciativa não precisam dispor de recursos financeiros.
A equipe é composta por atores, com direção e produção, que desenvolvem as ações baseadas na pesquisa, nos ensaios e no aperfeiçoamento da “linguagem do palhaço". O atendimento é viabilizado por meio de diálogos com as instituições, respeitando as orientações das equipes de saúde, a rotina hospitalar e os limites de cada paciente.
“O que me motiva é, apesar de tudo, o amor pelo que faço e a certeza de que a arte pode fazer diferença na vida das pessoas, especialmente em um momento de fragilidade. O carinho que recebemos dos pacientes, familiares e profissionais de saúde, somado à procura pelo nosso trabalho, renova nossa vontade de continuar e ampliar essa atuação”, contou o coordenador da equipe.
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Além da atividade voluntária, Dezan trabalha como arteterapeuta ao ministrar aulas para crianças em situação de vulnerabilidade.
Pessoas beneficiadas
A área de atuação do grupo é centrada também em São José do Rio Preto (SP), cidade que abriga um dos maiores complexos hospitalares do Brasil — o Complexo Hospitalar Funfarme (Fundação Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio Preto).
A rede de hospitais atende mais de 1,7 milhão de pacientes da região noroeste paulista e de todo o país, segundo dados divulgados pela Funfarme.
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“Nosso trabalho acontece principalmente por meio do improviso, utilizando música, mímica, mágicas e brincadeiras para criar conexões com as pessoas. Não se trata apenas de fazer rir, mas de perceber cada situação e oferecer uma experiência artística e humana respeitosa”, explicou o palhaço.
Novos horizontes
Além das visitas regulares aos pacientes de hospitais em São José do Rio Preto e Votuporanga, a equipe também participa de ações e campanhas internas.
“Esse trabalho mexe comigo porque é impossível entrar em um hospital e permanecer indiferente ao sofrimento das pessoas. Existem situações que nos sensibilizam profundamente, principalmente porque também vivi momentos de incerteza durante meu próprio tratamento”, relembra Aldo.
Questionado pela reportagem se tem a intenção de parar a atividade, Dezan é convicto em sua resposta: “Não penso em parar neste momento. A palhaçaria hospitalar se tornou parte da minha vida, e, depois de tantos anos, continuo motivado a estudar, aperfeiçoar e ampliar esse trabalho. Sei que existem desafios, mas a procura pelo nosso trabalho e o retorno que recebemos das pessoas nos dão motivos para continuar”, finalizou artista.
Equilíbrio emocional
Procurada pela reportagem, a psicóloga rio-pretense Eliane Prates Nogueira, de 41 anos, explicou que a iniciativa ajuda no equilíbrio emocional dos pacientes em hospitais.
“Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, sabemos que a maneira como interpretamos as situações influencia diretamente nossas emoções e comportamentos. O humor e as experiências agradáveis podem contribuir para aliviar a tensão emocional, diminuir temporariamente o foco nos aspectos difíceis do tratamento e favorecer emoções positivas”, conta.
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Ainda conforme a especialista, as interações entre as pessoas que estão internadas e os voluntários fortalecem os vínculos sociais e podem encorajar aqueles que mais precisam.
“É importante compreender que rir não significa ignorar o sofrimento ou minimizar a gravidade da doença, mas permitir que outras experiências emocionais também tenham espaço durante esse processo. O paciente continua sendo uma pessoa com desejos, interesses, vínculos e possibilidades, e não apenas alguém em tratamento”, finaliza Eliane.
* Colaborou sob supervisão de Henrique Souza
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